MÍDIA SOCIAL VERSUS VIDA SOCIAL: OS DESAFIOS E BENEFÍCIOS DE UMA VIDA CONECTADA foi o nome de uma mesa que aconteceu na última edição do Rio2C, no Rio de Janeiro.

A mesa terminou deixando na boca um sabor amargo. Devemos sair das redes sociais como fizeram os palestrantes? Essa pareceu ser a conclusão da mesa. Então devemos parar de jogar videogames ou ver TV porque existem estudos que falam dos males de seus usos? Ou mesmo os leitores ávidos do século XIX deveriam abandonar seus romances, pois aquela atividade era considerada algo que os tirava da realidade e alienava?

Acho que ter ou não redes sociais digitais é uma decisão pessoal. Mas marcas ou produtores de conteúdo, salvo excessões que possuam em seu DNA atributos que tornem essa decisão natural, abrirem mão das redes sociais no presente momento é também abrir mão de estar onde o seu público está, além de perder um espaço de contato e constante diálogo com seus consumidores.

Mas não podemos pelo final desqualificar a mesa. Os neurocientistas TIAGO BORTOLINI e PATRÍCIA BADO levantaram e organizaram pontos interessantes sobre a natureza humana. Destacaram o que de nossas necessidades as redes atendem e os efeitos da hiperconexão em nosso bem-estar. A moderação ficou a cargo do jornalista da Globo News ALEXANDRE ROLDÃO.

Entender os mecanismos que operam nas redes sociais e suas relações com as necessidades humanas nos faz lembrar o que de melhor podemos usar dessas ferramentas e como escapar à possíveis “armadilhas” que possam ser prejudiciais ao nosso bem estar.

Tiago Bortoloni destaca as característica humanas básicas da quais as redes sociais se aproveitam:

  • Sociabilidade:
    • Uma das características mais básicas da nossa espécie é sermos seres sociais. Aprendemos e nos divertimos em grupo. Ansiamos por pertencer a grupos sociais e gerar vínculos. Aqueles que não buscam a sociabilidade são considerados como tendo uma saúde mental pior.
  • Somos fofoqueiros por natureza:
    • Analisando conversas de bar, pesquisadores detectaram que 70% das pessoas falam de si e dos outros.
  • Comparação social
    • Outra questão marcante da nossa espécie é a comparação social. Ao nos compararmos com os outros vamos desenvolvendo melhor a nossa identidade.
  • Respondemos bem a pistas e estímulos
    • Nosso processo de aprendizado atende a estímulos e vamos formulando padrões a partir deles.

Esses quatro pontos são explorados pelas redes sociais. As notificações, por exemplo, são pistas poderosas. Navegamos e interagimos por meio de ícones que já fazem parte do nosso vocabulário.

As imagens mostram os palestrantes Tiago Bortolini e Patrícia Bado e o apresentador da mesa Alexandre Roldão
Alexandre Roldão, Tiago Bortolini e Patrícia Bado.

Tiago questiona as redes por estarem gerando amizades “fast food”, baseadas em conexões superficiais.

Ainda não temos estudos que revelem as consequências da hiper utilização de telas, mas já são pensadas medidas. A OMS em seu relatório pede pelo aumento do exercício físico e pela diminuição do tempo de tela, principalmente para as crianças.

Patrícia lembra que as crianças são como esponjas e imitam o comportamento dos adultos. Não adianta proibir que usem o celular enquanto se está o tempo todo no aparelho, inclusive enquanto fala com elas.

Os debatedores defendem que as redes sociais não são um problema, mas um sintoma do automatismo em que vivemos, quando ao invés de educar, os pais entregam para a criança um celular para que fiquem quietas.

Patricia e Tiago criam uma distinção entre o tempo de tela compartilhado e o tempo de tela isolado. Ver TV em grupo para eles seria mais saudável do que se isolar em seu telefone.

A tecnologia por si só não é boa ou ruim. A questão é o uso que damos para ela. Pesquisas indicam que faz bem para idosos em asilos usar o facebook. Enquanto uma menina usando a mesma rede, olhando compulsivamente a timeline de outras meninas, se comparando, acaba fazendo bullying consigo mesma.

O Instagram aparece nos estudos como sendo a mídia mais nociva. Ela permite nossos comportamentos básicos de auto gratificação (likes e comentário) e comparação, mas se antes as pessoas se comparavam aos vizinhos, hoje se comparam ao mundo inteiro. E muitas vezes essas comparações nem são reais, pois as postagens são fakes.

O YouTube e o Twitter são tidos como as redes menos prejudiciais. Há também uma consideração diferente devido ao grau de atividade e passividade do usuário. O facebook é tido como menos danoso para pessoas que o usam ativamente (postando e fazendo comentários) e mais danoso para aqueles que ficam passivamente rolando a timeline.

Outra crítica controversa às redes sociais que fizeram foi a acusação de unirem minorias que não deveriam estar em diálogo, pois fazem a sociedade retroceder, como os terraplanistas, que defendem que a terra é plana. Mas também temos que pensar que ela é capaz de dar voz e reunir minorias capazes de promover ações positivas.

Logo, como eles mesmo disseram, as redes sociais em si não são negativas ou positivas, mas usando-as de maneira consciente podemos escapar às armadilhas e usufruir do melhor que elas proporcionam.

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Mariana Castro Dias, Doutoranda em Comunicação Social na PUC-Rio e produtora de conteúdo
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