O escritor Neil Gaiman está entre os responsáveis por mais horas de atrações do SXSW 2019. Ontem, 09 de março, ele foi entrevistado pela atriz e escritora Kirsten Vangsness. No entanto, sua participação intensa no festival não foi diretamente abordada. 🤔

Talvez a presença de Gaiman tenha passado despercebida pela maioria… Só que, além dos cerca de 60 minutos da sessão conduzida por Vangsness, seu toque está em duas ativações fora dos domínios do Convention Center. Uma promove a série American Gods, cuja segunda temporada deve estrear dia 11 de março no Brasil. A outra é o teaser de Good Omens, mais uma série, ainda sem data de estreia confirmada. As duas produções levam o selo da Amazon Prime Video e são baseadas em best sellers de Gaiman.

De fato, a única participação direta do escritor no Southby deve ter sido sessão com Kirsten Vangsness. Foram cerca de 60 minutos de conselhos incríveis, com direito a intervenção musical e tiradas divertidas da entrevistadora, que se mostrou grande fã. Também escritora, ela fez perguntas que refletem muito do que outros criadores gostariam de saber. Por exemplo, questionou Gaiman sobre seu modo de lidar com a apropriação de suas histórias. Ela comentou como ele é generoso ao se alegrar com criações que outras pessoas fazem em cima de suas obras. Em contrapartida, ele contou que, quando era um jovem escritor, encontrou gente generosa que lhe deu conselhos e orientação. “”Você aprende a tratar as pessoas da forma como foi tratado”, disse com toda simplicidade.

Há quem chame Gaiman de Príncipe das Histórias (inclusive, esse é o título de um livro http://geracaoeditorial.com.br/principe-de-historias-os-varios-mundos-de-neil-gaiman/ sobre ele e sua obra), graças a sua capacidade de criar mundos incríveis com que uma vasta audiência se identifica. Isso, somado à sua capacidade de criar para várias mídias – livros, quadrinhos, cinema, TV -, o transformou em uma referência na cultura pop. Em síntese, Neil Gaiman é uma figura de identificação entre transmidiáticos.

Por mais que a sessão no SXSW não tivesse intenção de focar em transmídia, as entrelhinhas traziam dicas preciosas para quem lida com cocriação. Decerto, muito vinha em colocações lógicas – como quando ele disse que, ao entregar uma uma história para um produtor de cinema, não esperava vê-la reproduzida fielmente -, mas seu tom, sua postura e sua humildade diante da questão são um exemplo poderoso.

Houve um momento em que Kirsten Vangsness partilhou uma angústia comum a vários escritores. Ela, quando está escrevendo uma história, tem a sensação de estar se repetindo. Gaiman contou que passa pelo mesmo. Sempre que começa algo novo, tem esperança de que romperá suas fronteiras, no final o estilo de sempre é reconhecido.

Em suma, a sessão de Neil Gaiman no SXSW 2019 foi uma lição rica em sensibilidade, generosidade e dicas. Para citar algumas:

– é muito importante terminar uma história, é aí que você mais aprende;

– para ter novas ideias, trabalhe nas que já tem; escrevendo uma história que você tem insights para novas;

Por fim, um dos momentos para os escritores de plantão se identificarem e os fãs enlouquecerem. Neil Gaiman contou que, quando recebe um elogio sobre uma de suas histórias, seu pensamento imediato é “queria que você soubesse o que estava se passando em minha cabeça”. Ele contou que há um enorme abismo entre o que escreve e o que gostaria que sua escrita reproduzisse.