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De volta ao Brasil, Marília Fredini conta o que viu no NAB Show 2016.

Las Vegas é a capital do entretenimento, um oásis luminoso criado no deserto em que você pode ir do Egito à Paris passando pelo Coliseu em algumas poucas milhas. Seguindo o padrão americano, não há espaço para amadorismo e tudo é superlativo: painéis de LED gigantescos, o balé das águas do Bellagio, avenidas largas, estacionamentos infinitos, cassinos e mais cassinos em que milhares de pessoas estão em hipnose 24 horas por dia, sete dias por semana. É exaustivo. E maravilhoso.
A NAB Show ocupa todo o LVCC (Las Vegas Convention Center), quase do tamanho de 20 campos de futebol, com 1800 expositores e mais de 100.000 visitantes de 187 países.

Nem de perto consegui ver tudo o que gostaria, e mesmo assim vi muito mais do que imaginava. É uma experiência fundamental para quem trabalha com produção audiovisual em qualquer função: da captação à distribuição, analógico ou digital, grandes produções ou soluções low-cost. Tem de tudo.

Não é preciso nem dizer que os maiores stands eram os da Sony e da Canon: câmeras e projetores 4K e 8K dominando. Gruas, drones, livestreaming. Distribuição on-line, aliás, dominava. A convergência de broadcast e IP é uma realidade (*mesmo assim ainda ouvi engenheiros falando que isso era tendência. Vamos acordar, amigos).

São três dias de feira, de segunda a quarta, com pré-eventos desde o sábado.

Participei do evento da The Foundry no domingo, em um teatro que muito me lembrou o The Slow Club no filme Blue Velvet, do David Lynch. Não sei se porque era um teatro pequeno, num beco da grandiosa Strip, coquetéis e comida chinesa a vontade, ou as demos de realidade virtual que ocupavam a galeria. Ou apenas jet lag. O painel sobre Realidade Virtual (VR) foi uma prévia boa para a feira e apontou algumas questões que eu e os colegas da EraTransmidia já vínhamos discutindo sobre o assunto. Depois do painel e da NAB, voltei com a sensação de que VR é uma mega tendência, mas ainda não é uma realidade profissional e de consumo. Visitei muitos stands, desde startups como a GetShowy até “grandes players” como a GoPro. Nokia também está entrando no jogo, com a câmera OZO. Mas nenhuma delas está preocupada com o áudio 360 graus, ou workflows para tratá-lo. De que adianta um vídeo 360 graus, se o áudio é estéreo? A GoPro veio forte, apresentando um workflow desde a captação, com a OMNI, até a edição e stich no Autopano/Kolor e uma plataforma de conteúdo focada em vídeos 360. Mas, como a própria empresa disse: nada de áudio bianual até agora. A Kaleidoscope, produtora de VR e vídeo 360 montou um lounge de experimentação dos seus conteúdos usando o Samsung Gear, incluindo o The Crossing da Ryot, e The Night Caffé. A experiência com o conteúdo modelado em 3D ainda é mais imersiva do que o vídeo 360. Pode ser a resolução, a questão da tela do smartphone ou simplesmente o fato de que num ambiente modelado você não liga para esses pontos tanto quanto num vídeo. Vou dedicar um texto exclusivo sobre isso em breve.

A quantidade de empresas com soluções de distribuição multiplataforma era impressionante. Desde CMS e Media Management como a Brighspot e Frankly; ou integrando monetização e inserção de anúncios geolocalizados, como a Viviso ou a YoSpace, até soluções em Live-streaming como a AmpLive, e a própria LiveStream – plataforma já conhecida de, claro, livestreaming, que lançou – e esgotou durante a feira – a câmera MEVO, controlada por um app e integrada ao Facebook Live.

Outras soluções que chamaram a atenção por serem low-cost e high benefits foram as da Get Showy, cujo slogan “A TV Studio in your Browser” não poderia ser mais sincero: você só precisa de uma câmera ligada à plataforma web para gravar, editar e transmitir vídeos, inclusive com suporte à aplicação de vídeos 360 graus em chroma-key (foto).

A Streamstar veio com uma compacta e barata alternativa à já eficiente solução da NewTek com seus Tricaster, ou ainda a Teradek que mostrou sua solução para monitoramento e livestream de video em 360 graus. Da captação à distribuição o foco era na distribuição OTT e IP, uma gama enorme de alternativas para os produtores de conteúdo atingirem sua audiência digital de forma rápida e eficiente.

Se tantas empresas vieram com soluções que favorecem o produtor de conteúdo, principalmente os pequenos, é de se esperar uma posição dos grandes players e produtores de conteúdo: os broadcasters. Tive a oportunidade de assistir à palestra de Robert Seidel, da CBS, falando sobre TV Everywhere. O desenvolvimento da plataforma CBS-All-Access também merece um texto `a parte. Foi meu principal benchmark para o desenvolvimento do novo site da TV Cultura: conteúdo geolocalizado, grande volume de acervo, multiplataforma. Tudo bem que benchmark bom não quer dizer que o produto final será do mesmo nível, mas dentro de nossos recursos conseguimos criar um site responsivo baseado em vídeos, com boa indexação. Bom, isso com certeza vale um texto à parte, mas o importante é ressaltar o posicionamento da CBS diante do crescimento da audiência digital e móvel, principalmente em tempos de cord-cutting (o cancelamento dos canais por assinatura): surge a oportunidade de entrar no mercado ao lado do Netflix, principalmente com o fabuloso e histórico acervo da emissora. E ainda, com a criação da CBS-All-Access, eles ainda permitiram monetização da plataforma por parte de cada uma das suas emissoras afiliadas e a integração com os sistemas de medição de audiência da Nielsen traz dados precisos, e não apenas de amostragem. “A audiência tem que poder acessar o conteúdo onde e quando quiser”. Falar sobre isso todo mundo fala, mas a solução da CBS é uma resposta contundente.

Como membro da EraTransmidia, falei também com representantes da Intel, W3C e o hub de startups Sprockit. Em todas as conversas e visitas na feira, ficou claro o profissionalismo e o entusiasmo dos desenvolveres de tecnologia para criação e distribuição de conteúdo. Chega a ser comovente ver tanta gente, tanto esforço e trabalho bem feito de mentes brilhantes (engenheiros, desenvolvedores de software, matemáticos, físicos, cientistas da computação) em desenvolver soluções para que produtores de conteúdo possam criar e atingir seu público. A relação entre tecnologia e conteúdo é umbilical e essa primeira visita à NAB foi inspiradora. Espero que também seja para você. Comentem!