Esse é o primeiro de uma série de posts sobre o que rolou no RioContentMarket. O evento aconteceu entre 9 e 11 de março, no Rio de Janeiro. Em seu segundo dia, Howard Gordon, autor, produtor executivo e roteirista de séries como Homeland, 24 Horas, Arquivo X e Buffy, foi entrevistado por Maurício Stycer.

howardnorcm

O norte-americano se vê em um momento em que existem menos restrições quanto a um número definido de episódios ou breaks comerciais e em que é possível alcançar plataformas que não se podia sequer imaginar possível anos atrás.

O bingewatching criou uma nova forma de narrar histórias. Quando se imagina que alguém vai consumir todo uma temporada em um fim de semana, pode-se pensar em uma história com 10 horas. Isso tem seu valor de alto potencial imersivo, mas, ao mesmo tempo, o roteirista e produtor considera que não é seu intuito fazer com que as pessoas fiquem o fim de semana todo compulsivamente assistindo seu show. Ele diz que não teria problema em criar conteúdo dessa forma, mas defende a importância do ciclo, que permite que as pessoas assistam juntas, dando mais espaço para as conversas, debates e especulações. Howard trabalha para a Fox, a qual ainda tem grade de programação.

24 Horas foi lançado em novembro de 2001. A primeira temporada contava com 24 episódios e casa um deveria corresponder a uma hora na vida do protagonista Jack Bauer. Naquele momento, ele não tinha noção de que essa estrutura seria mantida por novas temporadas da série ao longo de 9 anos.

24h

Jack é um típico herói americano no que toca o grande empenho em frear os vilões, mas o personagem tem seu lado controverso e obscuro. Houve um momento em que o exército dos Estados Unidos estava sendo acusado de usar a tortura para fins militares e alguns soldados relataram ter Jack como exemplo. Seus hábitos tornaram então Jack quase um vilão contra os direitos humanos e uma vez entrando para a pauta da política nacional era necessário que os produtores atentassem para a questão. Interessante notar que ainda assim o show agradava à republicanos e democratas.

Ele diz que, como roteirista, o seu papel é levantar questões, tais como por que e de quem devemos ter medo ou qual custo podemos arcar por proteção. Foi o fato de continuar se perguntando sobre isso, e perceber que o público também tinhas as mesmas dúvidas, que embarcou em outro projeto relacionado à temática do terrorismo, Homeland.

homeland

O que alguns viram como uma resposta à 24 Horas, Howard vê como uma continuação de suas perguntas. Tais como o que torna alguém de fato um terrorista: a ação? A mera intenção?

Quando perguntado sobre a dinâmica de escrever para essas séries em grupo, o roteirista relata sobre a importância de desenvolver habilidades sociais, pois todas as vozes precisam criar uma história única, fazendo com que ora seja preciso ocupar o papel de político, ora de irmão, ora de CEO. Revela que odeia escrever, mas que adora ter escrito e o retorno do público.

Aconselha para quem quer ser roteirista: escrever; ser forte e fraco ao mesmo tempo; saber estar aberto, mas também fechado; aceitar críticas, mas bloquear algumas. É preciso perceber uma boa ideia quando sugerida, mas também recusar algo que não te convença.

A resposta para o que é preciso para ser um bom produtor executivo segue a mesma linha. Defende que nao é preciso saber as respostas, mas fazer as perguntas certas. Ser um líder e saber convencer os outros quando achar que a sua visão é a melhor para o programa, mas estar aberto ao que estes pensam. Entender que é sua responsabilidade contar bem a história e, assim, contratar as pessoas certas pra isso.

A pergunta que ele levantou em sua nova produção, Second Chance, é como ser moralmente um homem bom e o preço que se paga pelas escolhas.

O protagonista é um homem de meia idade que já tem uma certa vivência e nem sempre fez as melhores escolhas. O Islã também aparece na narrativa como um inimigo invisível. É um drama familiar que tenta mostrar o Islã de uma forma menos maniqueísta.

Quando perguntado sobre a hora certa para acabar uma série, o roteirista diz que é quando não há mais história para contar, o que podemos interpretar como a perda de força do debate suscitado pela pergunta.

Para Horward, a chave para apresentar um bom projeto para um investidor é saber o que você quer contar e o que as pessoas querem ver.