“Tempos Modernos” – com um desfile transmidiático, a Rosas de Ouro levou a indústria 4.0 para o sambódromo

escrito por Renata Lea

Carnaval! tem festa mais transmidiática do que é essa? Existe contador de história mais competente que carnavalescos de escola de samba?

O Carnaval costuma ser acompanhado de perto por muitos membros da EraTransmidia. Os olhares variam – do foco no processo que envolve os desfiles de escolas de Samba ao engajamento do público em carnavais de rua. Assim, vamos identificando vários elementos que caracterizam projetos transmídia envolvidos na dinâmica carnavalesca.

Mas, em 2020, uma escola de samba paulistana roubou a cena na ETM. A Rosas de Ouro virou tema desse post por dois motivos: primeiro, em consonância com um de nossos propósitos, traduziu as novas tecnologias para uma linguagem acessível; além disso, ampliou a história que contou no desfile em outras plataformas. Assim, se superou, indo um passo à frente da simples conceituação e proporcionando experimentação de novas tecnologias de forma simples e acessível. O Prof. Dr. Almir Almas (do LabArteMídia da USP e membro da ETM) participou dessa experiência ímpar e contou tudo para a gente.

O Desafio

Quando Élcio Brito, especialista em implantação de projetos de indústria 4.0, se aproximou da Rosas de Ouro com a ideia de falar sobre a nova revolução industrial no samba enredo, muitos consideraram o tema frio. No entanto, o carnavalesco André Machado considerou que seria uma oportunidade de trazer, para dentro do desfile, o público que assiste a tudo de casa ou do sambódromo. Certamente, seu sim ao desafio assustou alguns, mas a história que ele criou tinha toda simplicidade que a explicação de um tema complexo pede como pano de fundo. 

“Vamos unir a ciência da academia com a ciência popular. Esse desfile será uma resposta incrível para o que estamos vivendo. Essa época na qual a cultura e a pesquisa estão tão esquecidas e desvalorizadas” Almir Almas

O processo de criação começou depois que Élcio e seus parceiros técnicos explicaram ao carnavalesco o contexto da Indústria 4.0 ao longo de dois meses de workshop. Depois, André resumiu tudo em um slide, que apontava um norte para a narrativa a ser criada: contar a história das quatro revoluções e o impacto de cada uma delas. Nada de algoritmos, análises de dados nem “tecniquês”.

Assim, nasceu o ROXP4, um robô que, diante dos avanços tecnológicos, vê que está se tornando obsoleto e começa a questionar seu futuro; é aí que encontra um livro, “Tempos Modernos”, onde aprende sobre as revoluções industriais e entende os caminhos que tem adiante. 

O que fez o “Tempos Modernos” da Rosas de Ouro

Versão acústica do samba-enredo da Rosas de Ouro, direto do cnal da escola.

  • 6 robôs colaborativos
  • 2.500 chips nas fantasias
  • Smart bands (pulseiras com sensores de monitoramento) cujos dados foram coletados por 300 celulares
  • Realidade aumentada 
    • robô ROXP4 
    • carros alegóricos em 3D
    • passista digital no 3o carro (Jetsons)
  • Rede privada LTE 4G
  • Plataforma digital para o carnaval virtual
  • Realidade virtual – modelagem do carro 1 para VR
  • Documentário em realidade virtual não responsiva
  • Mão biônica impressa em 3D usada por um dos participantes do desfile
  • Aplicativo para celular 
  • Open innovation no processo produtivo
  • Envolvimento de mais de 30 empresas e de universidades (USP, MAUÁ e FEI)

As lições

Logo que o tema foi definido, a comunidade da escola começou a aprender sobre o tema que seria traduzido em carros alegóricos, figurinos, coreografias e tudo mais. Várias palestras detalharam elementos da indústria 4.0, e alguns foram incorporados ao desfile. As oportunidades para aprimorar a entrega final (leia-se, emoção), o engajamento e, até, o legado foram identificadas e colocadas em prática. 

Ao passo que aprendiam, os participantes iam descobrindo quais tecnologias agregavam valor ao que estavam criando. Notaram que sensores e monitoramento do corpo, por exemplo, não eram tão complexos nem atrapalhavam os movimentos, e, se as leituras fossem enviadas através de um aplicativo, o público poderia acompanhar como batem os corações de quem leva o desfile. Também reconheceram a realidade aumentada como oportunidade de engajamento e viram que o ambiente imersivo proporcionado pela realidade virtual fazia dela o meio ideal para compartilhar com o público a emoção de fazer parte de tudo isso. Também incorporaram chips NFC às fantasias, sabendo que serviriam como ferramenta para otimizar o desfile, acompanhando o tempo e a velocidade das alas. 

O legado

Toda essa tecnologia, bem como o mindset atrelado a ela, já repercute no planejamento do desfile do próximo ano. Os chips NFC nas fantasias, junto com etiquetas de QR code, ajudarão a escola em melhorias no processo de devolução de figurinos – que, tradicionalmente, são desmanchados a fim de que o material seja reaproveitado nos desfiles seguintes. Com certeza, isso ajudará a Rosas de Ouro na redução do coeficiente de carbono, assim como outras iniciativas-chave. Só para exemplificar, o carro número 1 foi modelado em 3D, e os destaques puderam, de antemão, experimentar e opinar sobre questões como a altura. Dessa forma, a margem de erro foi reduzida, e a peça não precisou de correções custosas.

Finalmente, para se antecipar a choques de opiniões, os idealizadores dessa ousadia bem planejada trabalharam com uma psicóloga, cuja função era alinhar as três culturas que se envolveram no projeto – acadêmica, empresarial e carnavalesca.

O desfile foi um sucesso, tanto na execução como na forma como contou e ampliou a narrativa. Vale uma análise mais detalhada e com um olhar transmídia, será um excelente benchmarketing.