Nesses dias em que as narrativas imersivas estão nos óculos panorâmicos do povo, nada mais libertador que viajar no tempo com os próprios pés. Visitar um lugar que guarda o chão, as paredes e muitas histórias do passado gera sensações únicas. A experiência é potencializada ainda mais se tudo isso estiver contextualizado no presente e preparado para o futuro. São essas as condições que os projetos do Hackathon +Salvador pretendem trazer para o Pelourinho.

O Centro Histórico da capital baiana já foi um dos pontos preferidos para curtir a noite soteropolitana. Contava com bares badalados e muitos shows, independente do dia da semana. Pouco a pouco, a população local parou de frequentar a região, afetando comerciantes. Não demorou, o esvaziamento das ruas do Pelô trouxe uma sensação de insegurança para o bairro. Nada muito diferente do que já ocorreu em inúmeros centros históricos mundo afora.

Para mudar esse cenário e seguindo a cartilha das smart cities, um dos principais jornais de Salvador (Correio da Bahia) se uniu à aceleradora de startups Rede+ para envolver a população na busca de soluções para os principais problemas do Pelourinho .Em casos semelhantes, incentivar o sentido de apropriação do espaço público é um caminho estratégico. Quando as pessoas sentem-se responsáveis e conectadas a um lugar, o resultados costumam ser contínuos e duradouros. Em paralelo, o modelo de hackathon tem dado provas de ser bastante eficiente para isso. No começo desse ano, a EraTransmidia falou sobre essa dobradinha, quando dedicou uma reunião a conversar com os participantes do Hackathon Webdoc do Bixiga, que, em seis dias realizou o webdocumentário Bixiga Existe de excelente aceitação e que, ainda hoje, desperta interesse a respeito da região.

O Hackathon +Salvador: Soluções de Impacto Social para o Centro Histórico teve 542 inscritos, mas as vagas eram limitadas a 50. O grupo ocupou o prédio da primeira faculdade de Medicina do Brasil, um dos mais bonitos do Pelourinho. Divididos em 10 subgrupos, os participantes passaram o último fim de semana focado nas questões sensíveis da área.

Ao final de 33 horas de maratona, o Hackathon foi encerrado. Entre as 10 soluções apresentadas, o destaque ficou para a associação entre tecnologia e conhecimento humano. Aliás, o vencedor do desafio foi justamente o projeto em que essa parceria era mais destacada. O aplicativo Viva Pelô pretende conectar os anfitriões culturais do Centro Histórico de Salvador aos visitantes. Na esteira do AirBnB Experiences, oferece experiências que vão além de passeios e histórias. A plataforma quer que seus usuários tenham uma pitada de vivência. Quer um exemplo? Quem escolher uma baiana de acarajé como anfitriã, além de se deliciar com o quitute, poderá aprender a fazê-lo. Imersão perfeita, mesmo que sem vídeos 360 ou dispositivos de VR.

Os jurados tiveram um trabalho difícil no Hackathon +Salvador… Eles deram o segundo lugar para o jogo Onde é que tá?. Pois é, o Pelourinho foi gamificado num aplicativo que une realidade aumentada a monumentos e prédios históricos. Inicialmente, o recurso utilizado será QR code, mas a próxima etapa do projeto contará com tecnologia mais avançada. A proposta tem tudo a ver com o artigo Narrativa transmídia: o game e o espaço público no limiar da hospitalidade, publicado na Revista Hospitalidade de novembro de 2016. 

O terceiro lugar ficou para o aplicativo Oh Vey, que também conecta visitantes a pessoas do Pelourinho. Mas, diferente do primeiro colocado, seu objetivo principal é sanar um dos problemas que mais incomoda quem visita o centro histórico de Salvador: abordagem insistente adotada pelos vendedores ambulantes. Os criadores do Oh Vey pretendem aliar a inscrição de perfis dos comerciantes a treinamentos. Além disso, apostam que o sistema de ranqueamento pode ajudar a criar uma nova cultura entre esses pequenos empreendedores.

Embora os três vencedores atendam especialmente ao turismo, entre os demais projetos do Hackathon +Salvador há propostas que visam benefícios para a mobilidade na região, os empreendedores locais e para a gestão do espaço público.